Será que sou louca?

postado por carolina ferraz

Eu me lembro quando perdia a cabeça, há alguma coisa tão presente nesse momento, até mesmo nossas emoções reverberam e quando estamos lá fora, sem preocupação, é fato, você sai de área. Isso não acontece porque eu não sei o bastante, apenas porque sei demais. Isso faz de mim uma louca? E apesar de muitas vezes termos a sensação de estarmos vivendo o melhor tempo de nossas vidas ( quantas vezes “the best time of my life” não passou por mim? ), o meu único conselho é “think twice”. Quantas vezes jogamos fora claras e nítidas oportunidades de transcendência e felicidade? Cada vez mais nos voltamos pra um mundo de aparências onde claro, o que você aparenta ser, não necessariamente corresponde ao que você é, porem, cada vez mais, o que você aparenta ser pode ser mais uma coisa agressiva e ostentatória. Se pudesse escolher, eu diria que prefiro as pessoas invisíveis. Será que sou louca? Mas fato é que acredito na delicadeza do que se sente, não suporto mais a convivência no meu dia a dia com as imposições de códigos já tão velhos e sem o menor significado pra mim. Sei que o mundo é feito através de códigos e que tudo faz parte de um quebra cabeça muito maior, mas não quero construir nada que não seja absolutamente coerente com as poucas coisas que importam pra mim. Será que sou louca? Não sei, as vezes penso que vocês todos são loucos. Quem sabe nós todos sejamos loucos? Mas realmente não desisto de buscar uma saída. Quero encontrar um jeito de me comunicar com o mundo através da suavidade, da invisibilidade, chegar ao ponto de não incomodar, mas de principalemte, não ser incomodada.

Não quero mais cuidar do que não me pertence, não quero mais administrar a loucura que não é minha, não quero mais respirar de manhã cedo me preparando pra sair protegida pra que os loucos do mundo não me ataquem, pra que a falta de cuidado e agressividade que impera nas relações humanas de hoje, não faça mais uma vítima, pois eu preciso voltar pra casa, preciso voltar pra minha filha e pra minha família. Mas há alguns dias, como hoje, por exemplo, em que nem mais consigo perder a cabeça, sou acometida por um cansaço profundo, mas me lembro, claramente daquela sensação de perder a cabeça, a falta de controle, a ansiedade, havia um certo glamour naquilo tudo. Hoje sinto que abri mão disso, tenho os meus amigos, tenho o meu trabalho e ainda assim, quando sou surpreendida, sou surpreendida com o que há de pior no outro. Eu tenho uma máxima, meus amigos sempre brincam comigo, eu digo que a merda é que as pessoas são exatamente o que aparentam ser, elas nunca nos surpreendem”. Digo isso com o coração decepcionado pois hoje vejo que o tempo passa. Vejo que a nova escala de valores entre as relações se tornou pra mim uma incógnita. Olho a minha volta, falo com meus amigos e sinto, todos saem de casa pra enfrentarem seus dias, vestidos com a capa de proteção contra a loucura do outro. So please, think twice.

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA JOYCE PASCOWITCH - Outubro / 2009

Am I crazy?

I remember what it felt like when I used to lose my temper. Everything feels so vibrant when you step outside yourself. You don’t care, you really just lose it, lose contact with the world. I don’t feel this because I know too little but because I know too much. Does this make me crazy? Despite that sensation that we’re experiencing one of the best moments of our lives (how many times have I thought this?) my only advice is to “think twice.” How many times have we thrown away unmistakable chances for happiness and transcendence?

Nowadays, we’re more and more drawn toward the world of appearances where, obviously, what one seems to be doesn’t necessarily correspond to what one is. And yet, more and more often, what one seems to be is just one more aggressive, ostentatious thing. If I could choose, I would say that I prefer people who are invisible. Am I crazy? The fact is that I believe in subtle feelings. I can no longer bear living with codes that define outmoded behaviors that have really stopped having any meaning for me. I know that the world is made up of codes and that this is all part of a bigger puzzle, but I’m only interested in creating something that fits in with the few things in life that are important to me. Am I crazy? I don’t know. Sometimes I think that everyone else is crazy. Or maybe we’re all crazy. I’m still trying to find a way out of all this. I want to find a subtle, even invisible way of communicating with others. I don’t want to bother people, but even more importantly, I don’t want to be bothered.

I’m no longer interested in taking care of something that doesn’t belong to me, I no longer want to deal with any lunacy other than my own, I no longer want to take a deep breaths every morning to fortify myself against possible attacks by all the nuts in the world, so that the pathological thoughtlessness and aggression that currently govern human relationships don’t create one more victim. At the end of the day I need to get home to my daughter and my family in one piece. There are some days, like today, when I no longer manage to lose my temper. Instead, I was overwhelmed by exhaustion. And yet, I can still clearly remember that sensation of losing my temper, of losing control, of feeling anxious. There was a certain glamour to it all. Now, I feel like I’ve let go of all that. I still have my work and my friends and now, when I’m caught off-guard, I’m astonished by the worst someone has to offer. I have a saying that my friends always tease me about, “What really sucks is that people are exactly what they seem to be, they never surprise us.”

It breaks my heart to say this because I know that time is passing and yet I still don’t understand this new way of measuring relationships. When I look around or talk to my friends, I feel that we all leave home suited up to tackle our day, wearing that special cape that offers protection against the insanity of others. So please, think twice.

Na cozinha…

postado por carolina ferraz

Pra quem não sabe, eu sempre fui uma apaixonada por comida e adoro cozinhar. Sempre tive esse plano B na cabeça. Se um dia minha carreira de atriz não der certo, posso cozinhar pra fora (hehe) e modéstia parte, os amigos que conhecem aprovam esse plano B. Quantas vezes já fui escondida pra cozinha na casa da Patricia Mello ou da Lenny Niemeyer e ficava lá cozinhando pra 50, 60 pessoas. é impressionante como me sinto bem quando encosto meu umbigo no fogão. Sou autoritária e ordeira, não gosto de ninguém por perto, sigo sempre a minha metodologia própria, a medida que vou cozinhando, imediatamente vou  limpando e agora mais do que nunca, estou me aventurando por diferentes universos gastronômicos, afinal, em março de 2010, estou lançando meu livro de culinária pala editora Jaboticaba. E se o processo todo for tão divertido e engordativo quanto a parte inicial, a pesquisa, já tenho que pedir socorro agora: acudam, acudam!! Vou virar um leitãozinho de tanto que tenho comido! Sem falar nas pobres vítimas dos meus amigos, não há uma única vez em que perco q oportunidade de enfiar literalmente alguma nova invenção ou alguma nova receita que descobri aqui e ali. ainda mais nos tempos que correm, onde a ditadura da magreza impera. Vou ficar gordinha e solitária, pois meus amigos nem aparecem mais em casa (risos).

Mas, verdade é que ainda me restam alguns bons, verdadeiros e corajosos amigos e juntos, nessas últimas  semanas, temos literalmente acordado comida, respirado colida, bebendo comida, dormido comida e sonhado comida. Nunca estive tão comida aliás em toda a minha vida, hehehe.  São verdadeiros banquetes intercalados por um copinho de água morna e 2 colheres de chá de bicarbonato de sódio pra que a digestão sobreviva. Mas confesso, não resistirei a esse processo por mais 15 dias, porque realmente, nunca pensei que comer uma coisa que sempre adorei fazer na vida, fosse me deixar tão exausta.

E o processo de criar um livro sobre comida nao pode escapar ao capítulo da experiência, da vivência em si. Todas as receitas são testadas e provadas e aprovadas. Escuto sempre o pitaco de um amigo aqui e ali sobre cada uma delas e confesso, estou vivendo um dos momentos mais divertidos da minha vida. Acredito que cozinhar é uma maneira de demonstrar afeto e se um dia as pessoas ao cozinharem uma dessa receitas conseguirem sentir todo o prazer e divertimento que eu e meu bando temos sentido, então já terá valido a pena e honestamente, espero que gostem, logo agora que estou revelando essa nova faceta, do leitãozinho que há em mim, afinal nem todo mundo expoe esse seu lado gorducho por ai esperando ser aceito, ainda mais eu, que todo mundo jura que não come, pois aí está, o mito foi destruído, eu como, como sim, e como muito.

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA JOYCE PASCOWITCH - Setembro/2009

In the kitchen…

Whoever doesn’t know, I’ve always loved food and cooking. I’ve always had a Plan B: If one day my acting career falls apart, I can make money cooking. Modestly  speaking, the friends who know about this Plan B exploit me for all it’s worth! I’ve lost count of the times I’ve hidden myself away in Patricia Mello’s or Lenny Niemeyer’s kitchen and spent hours cooking for 50 or 60 people. It’s amazing how good I feel when I’ve got my belly propped against the stove. I’m a bossy cook and I like everything extremely organized.  I don’t like anybody near me. I always follow my own method and I always clean as I go.

Right now, I’m exploring different gastronomic universes. In March 2010, Jaboticaba will publish my cookbook.  And if publishing the book is as fun and fattening as the research has been, I’m going to shout for help now! HELP! HELP! All this eating is turning me into a little pig. Forget about my friends - or should I say victims. I haven’t lost one chance to literally stuff some new dish or recipe into the mouth of somebody I love. I feel sorry for them these days where we’re all ruled by the dictatorship of thinness. I’m going to wind up plump and lonely because my friends don’t even stop by anymore. (laughs)  .

The truth is I still have some good, true, corageous friends and together over these last weeks, we’ve literally breathed, drunk, slept, and dreamed of food. I’ve never felt so sated in my entire life. (he he). My digestion has survived only because these banquets have alternated with cups of warm water laced with two teaspoons of baking soda. I must confess that I couldn’t survive more than 15 days of this.  I never really realized that eating something that I’ve always loved making would leave me so exhausted. And you can’t write about food and skip the chapter on eating. All the recipes have been tested, tried and approved. I always pay attention to what friends have to say about each and every dish and I have to confess that this has been one of the most entertaining moments of my life.

I believe that cooking is a way of showing affection and if one day people have as much fun making one of these recipes as my friends and I have had preparing and eating them, it’ll be worth it. I sincerely hope that people like the book. So, I’m revealing this new facet of myself  and liberating my inner pig. Not everyone goes around exposing their chubby side and hoping it’ll be accepted, much less me who everyone swears doesn’t eat a thing. Well, there you go, one more myth destroyed. I do eat. I eat a lot.

Historias de Amor - com Rafaela Cardoso

postado por carolina ferraz

Histórias de Amor - Carolina Ferraz convida Rafaela Cardoso

Historias de Amor - com Leticia Isnard

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Histórias de Amor - Carolina Ferraz convida Leticia Isnard

Historias de Amor - com Marcella Virzi

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Histórias de Amor - Carolina Ferraz convida Marcella Virzi

Historias de Amor - Flavio

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Histórias de Amor - por Carolina Ferraz - FLAVIO

Historias de Amor - Mariana

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Histórias de Amor - por Carolina Ferraz - MARIANA

Historias de Amor - Luiza

postado por carolina ferraz

Histórias de Amor - por Carolina Ferraz - LUIZA

Eu sei quem você é.

postado por carolina ferraz

Ela nasceu e foi criada pra se tornar um sucesso. Sua família era linda, seus irmãos loiros e dourados, sua casa de campo um espetáculo. O sol se punha ali, logo atrás de uma colina, eram um dos momentos mais memoráveis do dia e assim ela cresceu, entre viagens aqui e ali, passeios a cavalo e aulas de ballet. Sempre foi uma garota bonita, que se tornaria uma linda mulher, mas vocês sabem, existe uma diferença entre uma mulher linda e uma linda mulher. Uma mulher linda é linda, uma linda mulher tem as cores certas, se mexe com sensualidade, tem um sorriso charmoso, as mãos delicadas, mas não é uma mulher linda.

E claro, no meio de tanta prosperidade, foi impossível não se contaminar pela sensação de ser especial. O tempo foi passando, ela teve namorados famosos, outros nem tanto, iniciou uma carreira e teve até um certo sucesso. Alguns amigos do passado ficaram, outros ela simplesmente evitava, como se manter uma relação com aquelas pessoas especificas fosse trazer a tona tudo o que de fato não aconteceu com ela. Toda a sua fé em sua superioridade foi se derretendo ao longo da vida, afinal ela já não era mais nenhuma criança, já estava nos middle thirties e sabia que aquele campo não era mais seu, que seus irmãos na verdade, nunca foram tão dourados, que todas aquelas viagens, hoje em dia, fazem parte de um lindo jogo de álbum de fotografias, que pertencem a um passado, pois nem mesmo aquela família perfeita e saudável existe mais. Seus pais não tem mais o mesmo dinheiro, ela precisa trabalhar e aquele por do sol espetacular e inesquecível é apenas um lugar onde ela se esconde quando precisa se sentir abrigada e protegida.

Por que será que ela quer tanto negar e rejeitar o seu passado? Por que será que ela evita tanto conviver com aquela pessoa, que toda vez que se encontram, e como se ela escutasse: “Olha, eu sei quem você é”. Não consigo entender pessoas que se afastam de sua identidade, acho que na verdade a vida é complexa e inesperada pra todos, mas depois de tanto sobe e desce, o que na vida pode ser melhor do que finalmente encontrar alguém e poder enxergar nos olhos daquela pessoa a sua identidade e escutar o fundo do seu coração: “Olha, eu sei quem você é.”

Ela se perdeu, deslumbrada com o glitter da fama e as festas glamourosas. Vamos então só torcer pra que um dia ela volte.

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA JOYCE PASCOWITCH - Agosto / 2009

I know who you are.

She was born and raised to be a success. Everyone in her family was beautiful - her brothers and sisters were blond with golden skin, even their country house was spectacular. The sun set there, behind a hill near the house, and those sunsets were some of the most memorable moments of her day. It was there she grew up, among trips abroad, ballet, and horseback riding. She was always a pretty girl who would become a pretty woman. Although you know there is a difference between a beautiful woman and a pretty woman. A beautiful woman is beautiful. A pretty woman is sexy, has nice coloring,  a charming smile, and delicate hands, but she’s not a beautiful woman.

Of course, in the midst of so much wealth, it was impossible not to be contaminated by the sensation of being special. As time went on, she had some famous boyfriends, others less so. She began her career, and
achieved a certain success. Some friends from the past remained, she simply avoided others. It was as if she were afraid that maintaining a relationship with them would emphasize what she had never achieved. All her faith in her superiority had melted as she’d gotten older. After all, she was no longer a child, she was already in her mid-thirties and realized that the world was no longer hers, that her brothers and sisters had never been quite so golden, that all those trips were nothing more than a beautiful photo album that belonged to the past because that perfect, healthy family no longer existed. Her parents weren’t quite so wealthy, she needed to work and that spectacular, unforgettable house with the sunsets was now just a place where she went to hide when she needed to feel sheltered and protected.

Why does she have such a deep desire to deny and reject her past? Why does she try so hard to avoid seeing that person, as if each time they met, she heard “Listen, I know who you are.” I don’t understand people who distance themselves from their identity, I think that everyone finds life complex and unexpected. After so many ups and downs, what could be better than finally finding someone and being able to see your true self in their eyes and deep in your heart hear them say, “Look, I know who you are.”

She’d lost herself, hypnotized by the glitter of fame and the glamourous parties. Let’s just hope that one day she returns.

Entrevistas - por Carolina Ferraz

postado por carolina ferraz

Entrevista com Francesca Romana Diana

Esse projeto nasceu da vontade de trocar idéias com outras mulheres. Mulheres que na minha opinião são fortes, interessantes e tem muita história pra contar. A Francesca é a primeira dessa série de entrevistas. Desde o nosso primeiro encontro, percebi nela uma presença concreta, uma criadora incrível e acima de tudo, uma mulher especial.

Ela veio para o Brasil para passar férias, se apaixonou pelos encantos brasileiros e por aqui ficou, construindo uma vida e conquistando vários amigos. Nos últimos 3 anos de sua vida, ela tem seguido seu rumo sozinha, depois de uma separação, Francesca retomou seu nome completo, Francesca Romana Diana e se reinventou. Mais alegre, mais jovial, mais exuberante. Ela mesmo ri “adoro quando alguém passa em frente daquela lojinha laranja e diz: Acho que essa deve ser a loja da filha da Francesca.” Sinal de que realmente mudei.

Conheçam por vocês mesmos, essa guerreira que tem no nome, Diana, um pouco do que pensa e um pouco da sua história. Espero que gostem dela tanto quanto eu.

CF - Quando você chegou ao Brasil, o que te fez ficar aqui?

FRD - Vim pra cá sozinha e me encantei com a energia das pessoas. O Brasil é minha fonte de energia criativa, por exemplo, não consigo criar se estiver fora do Rio de Janeiro. A vida é uma surpresa mesmo, né?! Sempre gostei de jóias e desde que aqui cheguei, comecei a trabalhar com isso. Fiz uma pequena coleção e ofereci para a HStern, acabei então, por um período, produzindo pra eles. Foi uma relação muito agradável.

CF - Seu trabalho é muito pessoal, eu imagino que você nas suas relações também seja muito pessoal. Qual é a importância dos seus amigos na sua vida depois da sua separação?

FRD - Sem o apoio dos amigos acho que não teria conseguido. Me deu muita segurança ter pessoas que me falavam o dia inteiro: “Francesca, você vai conseguir, você já fez isso uma vez”, “você vai conseguir fazer de novo”, “Francesca vai lá”, “Francesca, podem te tirar tudo, mas é você a alma do negócio”. Isso me deu uma segurança muito forte, reafirmou dentro de mim que eu sabia fazer, que eu tinha talento e que eu ia conseguir. E o fato dos meus amigos reafirmarem isso todo o tempo foi muito importante. Sem dúvida, não só minhas amigas no Rio foram muito importantes, mas também minhas amigas da Itália e minha família. Acho que psicologicamente eu não teria conseguido sem o apoio de todos eles. Por exemplo, minha amiga de Paris gostou muito mais da nova coleção do que das coisas que eu fazia antigamente. Acho que resgatei uma alegria, redescobri minha identidade. Então, as coisas começaram a acontecer. Surgiu uma loja em Brasília que queria porque queria um corner meu e eu falava: “Mas gente, Brasília já tem uma outra loja que se chama Francesca Romana que todo mundo conhece”, mas a pessoa me falou: “Mas você é a Francesca Romana Diana para o Rio de Janeiro, por que não pode ser também para Brasília?”. E eu acho que esse corner dentro dessa loja, que é uma loja lindíssima e muito bem freqüentada, começou a chamar a atenção das pessoas do Brasil todo. Os primeiros franqueados começaram a ver que a gente estava fazendo algo diferente. Acho que começou a surgir um certo desânimo nos antigos franqueados e começaram a me procurar, nisso vieram também os novos. Logo abri em Salvador, Maceió e Goiânia.

CF - Isso tudo em quanto tempo?

FRD - Desde a primeira loja em Ipanema, em novembro de 2006, para agora, são quase três anos.

CF - E hoje? Quantas lojas você tem?

FRD - Agora são 17 abertas, entre Brasil e Exterior, e mais 3 que vamos abrir até o final do ano.

CF - Nossa, você não acha isso incrível?

FRD – Incrível! Com todos os problemas que tivemos, né!? Porque eu tive obviamente que refazer tudo, novos fornecedores, as pedras, a metalurgia, que foi a parte mais difícil, e também treinar novas pessoas para trabalhar comigo, no padrão que meu cliente estava acostumado. Não foi nada fácil.

CF - De que região da Itália você é?

FRD - Nasci em Nápoles, que no mundo é a cidade mais parecida com o Rio de Janeiro que existe.

CF - Nápoles é uma loucura, né?

FRD - É linda, com contrastes incríveis. Pobres e ricos que moram na mesma rua. Barulho, bagunça, cheiros. Muita alegria e cores.

CF - Pelo fato de ser italiana, a sua visão com relação aos acessórios é diferente, porque as italianas são famosas pelos seus acessórios. É como se isso estivesse no DNA dos italianos.

FRD - Com certeza, acho que ter passado toda a minha infância vendo isso em outras mulheres foi super importante. Eu cresci vendo aquilo, minha mãe, minha tia, minhas avós, eram mulheres que usavam muitas jóias.

CF - E como boa italiana você também trabalha com esmaltados.

FRD - É difícil fazer esmaltados no Brasil, mas eu sempre fui encantada por aquilo. Aos 10 anos eu caçava esmeraldas na casa da minha avó, na Toscana. Era incrível. Ela mandava vir uma joalheira em muitas tardes no verão, e as mulheres da família ficavam ali sentadas, refazendo suas jóias. Então eu via águas marinhas imensas. Tudo era sendo desmontado e se formavam novas jóias. Eu me lembro de uma borboleta de esmalte azul, com uma pedra de água marinha enorme, que me deu um imprinting, sabe? As jóias têm que ser grandes, coloridas, alegres e únicas. É isso que busco no meu trabalho agora.

CF - Você me disse que colocou seu DNA nas peças que faz, que você só consegue trabalhar com o que realmente gosta.

FRD - Sem dúvida, eu faço aquilo que me encanta. Só consigo vender peças que eu usaria. Se é uma peça que eu não usaria, nem finalizo o protótipo. Acho que nessa altura da vida é importante sim comercializar e ser comercial, mas o mais importante é fazer aquilo que a gente acredita e para pessoas que eu quero fazer.

CF - E que mulher é essa, Francesca?

FRD - Ela é “dona do seu nariz”, sabe o que ela quer, anda livre e solta pelo mundo, não precisa pedir nada pra ninguém. Ela pode ter tanto 15 anos quanto 90. São mulheres que possuem alma própria.

CF - Como você cria uma coleção? Como você conjuga todas as peças, porque imagino que todas devam comunicar-se entre si.

FRD – Sim, sim! É exatamente isso! Primeiro começa uma viagem, uma viagem mesmo, uma exposição de arte, um concerto. Nós que somos criativos estamos conectados ao mundo e temos inspiração o tempo todo. Essa inspiração tem que ser seguida e de lá começam a nascer idéias para o papel. Do papel você passa para o protótipo. Com o protótipo eu gosto de conversar, usa-lo, misturar com outro protótipo, trazer uma idéia que já tinha tido lá atrás, enfim, trabalho com ele até ter uma gama de protótipos, que pode ser de 100 a 200 peças. De lá a coisa então começa a ser enxugada para entrar dentro dos parâmetros normais. Assim, a cada semestre, tenho que lançar mais ou menos 100 peças. São em média 200 peças por ano. Elas estão dentro de uma linha, porque naquele momento eu me inspirei por aquele assunto. Por exemplo, a minha coleção que se chama Familia Medici, começou a ser imaginada em um museu da Itália, em Firenze.

CF - A Família Medici deve ter dado muita inspiração!

FRD - Sim. Aqueles quadros incríveis, aquelas mulheres com jóias incríveis. Essas jóias na verdade depois se perderam ou foram roubadas, mas nos quadros, nas telas, elas ainda existem. Essas jóias com certeza já atingiram outros criadores. Reconheço alguns traços do Bulgari, alguns do Cartier, alguns traços de jóias russas. Tenho certeza que todos esse designers antes de mim, olharam esses quadros. Já a coleção Rio de Janeiro por outro lado, foi inspirada por curvas. As curvas do Niemeyer, as curvas do calçadão, as curvas da cidade, o perfil do Rio de Janeiro. Isso tornou a seguir a linha Ondas. Quando estava desenhando a linha Brasília, fui falar com o Niemeyer. Mostrei pra ele o primeiro protótipo, pois não queria usar as linhas dele sem que primeiro me desse autorização. Acabei recebendo uma benção formal e ele até me deu um palpite que achei ótimo. Eu levei pra ele uma pulseira onde seu trabalho era vazado ao contrário.

CF - Como assim? Você fez o negativo?

FRD - Isso, o negativo. Ele olhou aquilo e falou: “Mas por quê? Faz o contrário. Onde eu botei o concreto, bota a prata. Pode fazer, minha filha, que vai ficar melhor”. E eu fiz. E realmente ficou muito melhor. É obra dele, exatamente como ele a concebeu.

CF - E a próxima coleção? O que vai ser a próxima coleção?

FRD - (risos). Eu não posso te contar ainda, pois não está formada.

CF - Você sofre com o processo criativo? Tenho muitos amigos que trabalham com roupa e sofrem horrores.

FRD - Eu sofro sim, mas depois de tudo aquilo que passei, esse sofrimento é quase uma benção, eu paro e falo: “Nossa, graças a Deus que estou sofrendo de novo para criar uma coleção”. Que bom que eu ainda tenho o luxo de sofrer de novo pra criar uma coleção. Porque houve um momento que achei que isso estava perdido, sabe?

CF - Você chegou a pensar que não tinha mais jeito?

FRD - Por um tempo não teve mesmo jeito. Eu só via as coisas acontecendo em meu nome sem que eu pudesse fazer nada.

CF - O trabalho foi fundamental, né?

FRD - Sim, ele me salvou. Nesse período toquei dois projetos. Eu criei uma exposição pra mostrar o meu trabalho, uma retrospectiva. Os embaixadores da Itália me disseram: “Francesca, te solicitamos uma exposição há dois anos. Dentro dessa sala, na hora que você quiser, durante um ano. Faça acontecer”. Foi uma maravilha, me dediquei a esse projeto, busquei patrocínio e me encontrei com o Hugo França, que usava madeiras abandonadas pela natureza, esculturas que são mobiliários, respeitando a forma da madeira. Fizemos então uma linda exposição, que foi muito visitada e aquilo me deu muito ânimo. Eu revivi tudo aquilo que tinha feito nos últimos 20 anos e que por sorte tinha guardado. Além disso, em paralelo, fiz o projeto de um livro, sobre Pedras Brasileiras, onde tive suporte de uma equipe e patrocínio do Banco Icatu. O livro aconteceu, foi lançado e está hoje nas livrarias. Foi parar nas universidades e está sendo usado como livro de referência. Isso tudo me deu muito orgulho.

CF - E a sua família? Gosta do Brasil?

FRD - Agora sim, eles vêm muito ao Rio de Janeiro.

CF - As famílias italianas são muito unidas, todos trabalham no negócio da família?

FRD - Sim, somos quatro, graças a Deus. Tenho um irmão que toma conta de uma parte, outro que toma conta de outra e eu e minha irmã pudemos voar soltas. Eu moro no Brasil e ela na Alemanha. Uma vez estávamos todos em Angra, naquela beleza toda, essa água quente do Brasil, estávamos nos lembrando como ia ser janeiro em Roma e minha mãe disse ao meu pai: “Eu, quando um de nós dois morrer, vou me mudar pro Brasil”.

CF - (risos) Já contava que não seria ela, né?!

FRD - (risos) Pra uma pessoa na terceira idade não tem nada melhor do que isso aqui.

CF - Eu tava lembrando que aquele dia no jantar você me contou a historia da técnica do elevador…

FRD - (risos ) É verdade… Este ano fui escolhida pela Endeavor, que é uma instituição maravilhosa que apóia empresários em países em que ela acredita poder mudar a realidade se aquele país tivesse mais empresários empreendedores. No Brasil, a cada ano são selecionadas 500 empresas para avaliação, onde apenas 1% é escolhida como empreendedor Endeavor. São empresas que estão dentro dos padrões éticos, de desenvolvimento e de garra que eles acham que são necessários para se tornar um exemplo para outros empreendedores.

CF - Isso é genial.

FRD - Então é o seguinte: você faz o seu dever de casa, estuda bem todas as questões da sua empresa para aproveitar da melhor forma possível aquela uma hora e meia que aquele empresário tem pra gastar com você e a cada mês ele manda e-mails pedindo notícias. Eles me explicaram que é muito importante ser objetivo, explicar todo o seu problema em minutos. Essa técnica se chama Elevator Pitch. Em três minutos eu tenho que dizer quem sou, o que faço, qual é o meu produto, apresentar o meu problema e descobrir de que maneira ele pode me ajudar. Nós brincávamos que entre o térreo e o sétimo andar você precisa resolver sua vida. (risos)

CF - Isso é incrível, Francesca.

FRD - A Endeavor caiu do céu. Mas sabe o que é mais incrível? Que daí pra frente eu já me comprometi a quando chegar a um ponto em que eles entendam que eu estou pronta, a prestar também network para outras mulheres que estão desenvolvendo trabalhos sozinhas, ou seja, me tornar uma multiplicadora. Assim, vou poder repassar e distribuir todo o know-how que aprendi durante esse período.

CF - Que bacana essa mentalidade de devolver um pouquinho do que a gente recebe. Acho que no Brasil essa cultura não existe, o que é uma grande pena.

FRD - É verdade. Essa mentalidade é fundamental, mas acho que isso já está acontecendo. Tem vários núcleos de pessoas que já estão fazendo. Um bom exemplo sempre vai se alastrar.

CF - E sair contaminando no sentido positivo.

FRD - Exato.

CF - Ah, eu tô feliz, acho que conversamos bem. E você?

FRD - Achei ótimo. A única coisa que eu queria enfatizar é: acredite, confie em si mesmo, porque se você acreditar em uma coisa e se empenhar muito, isso vai acontecer.