Entrevista com Francesca Romana Diana
Esse projeto nasceu da vontade de trocar idéias com outras mulheres. Mulheres que na minha opinião são fortes, interessantes e tem muita história pra contar. A Francesca é a primeira dessa série de entrevistas. Desde o nosso primeiro encontro, percebi nela uma presença concreta, uma criadora incrível e acima de tudo, uma mulher especial.
Ela veio para o Brasil para passar férias, se apaixonou pelos encantos brasileiros e por aqui ficou, construindo uma vida e conquistando vários amigos. Nos últimos 3 anos de sua vida, ela tem seguido seu rumo sozinha, depois de uma separação, Francesca retomou seu nome completo, Francesca Romana Diana e se reinventou. Mais alegre, mais jovial, mais exuberante. Ela mesmo ri “adoro quando alguém passa em frente daquela lojinha laranja e diz: Acho que essa deve ser a loja da filha da Francesca.” Sinal de que realmente mudei.
Conheçam por vocês mesmos, essa guerreira que tem no nome, Diana, um pouco do que pensa e um pouco da sua história. Espero que gostem dela tanto quanto eu.

CF - Quando você chegou ao Brasil, o que te fez ficar aqui?
FRD - Vim pra cá sozinha e me encantei com a energia das pessoas. O Brasil é minha fonte de energia criativa, por exemplo, não consigo criar se estiver fora do Rio de Janeiro. A vida é uma surpresa mesmo, né?! Sempre gostei de jóias e desde que aqui cheguei, comecei a trabalhar com isso. Fiz uma pequena coleção e ofereci para a HStern, acabei então, por um período, produzindo pra eles. Foi uma relação muito agradável.
CF - Seu trabalho é muito pessoal, eu imagino que você nas suas relações também seja muito pessoal. Qual é a importância dos seus amigos na sua vida depois da sua separação?
FRD - Sem o apoio dos amigos acho que não teria conseguido. Me deu muita segurança ter pessoas que me falavam o dia inteiro: “Francesca, você vai conseguir, você já fez isso uma vez”, “você vai conseguir fazer de novo”, “Francesca vai lá”, “Francesca, podem te tirar tudo, mas é você a alma do negócio”. Isso me deu uma segurança muito forte, reafirmou dentro de mim que eu sabia fazer, que eu tinha talento e que eu ia conseguir. E o fato dos meus amigos reafirmarem isso todo o tempo foi muito importante. Sem dúvida, não só minhas amigas no Rio foram muito importantes, mas também minhas amigas da Itália e minha família. Acho que psicologicamente eu não teria conseguido sem o apoio de todos eles. Por exemplo, minha amiga de Paris gostou muito mais da nova coleção do que das coisas que eu fazia antigamente. Acho que resgatei uma alegria, redescobri minha identidade. Então, as coisas começaram a acontecer. Surgiu uma loja em Brasília que queria porque queria um corner meu e eu falava: “Mas gente, Brasília já tem uma outra loja que se chama Francesca Romana que todo mundo conhece”, mas a pessoa me falou: “Mas você é a Francesca Romana Diana para o Rio de Janeiro, por que não pode ser também para Brasília?”. E eu acho que esse corner dentro dessa loja, que é uma loja lindíssima e muito bem freqüentada, começou a chamar a atenção das pessoas do Brasil todo. Os primeiros franqueados começaram a ver que a gente estava fazendo algo diferente. Acho que começou a surgir um certo desânimo nos antigos franqueados e começaram a me procurar, nisso vieram também os novos. Logo abri em Salvador, Maceió e Goiânia.
CF - Isso tudo em quanto tempo?
FRD - Desde a primeira loja em Ipanema, em novembro de 2006, para agora, são quase três anos.
CF - E hoje? Quantas lojas você tem?
FRD - Agora são 17 abertas, entre Brasil e Exterior, e mais 3 que vamos abrir até o final do ano.
CF - Nossa, você não acha isso incrível?
FRD – Incrível! Com todos os problemas que tivemos, né!? Porque eu tive obviamente que refazer tudo, novos fornecedores, as pedras, a metalurgia, que foi a parte mais difícil, e também treinar novas pessoas para trabalhar comigo, no padrão que meu cliente estava acostumado. Não foi nada fácil.
CF - De que região da Itália você é?
FRD - Nasci em Nápoles, que no mundo é a cidade mais parecida com o Rio de Janeiro que existe.
CF - Nápoles é uma loucura, né?
FRD - É linda, com contrastes incríveis. Pobres e ricos que moram na mesma rua. Barulho, bagunça, cheiros. Muita alegria e cores.
CF - Pelo fato de ser italiana, a sua visão com relação aos acessórios é diferente, porque as italianas são famosas pelos seus acessórios. É como se isso estivesse no DNA dos italianos.
FRD - Com certeza, acho que ter passado toda a minha infância vendo isso em outras mulheres foi super importante. Eu cresci vendo aquilo, minha mãe, minha tia, minhas avós, eram mulheres que usavam muitas jóias.
CF - E como boa italiana você também trabalha com esmaltados.
FRD - É difícil fazer esmaltados no Brasil, mas eu sempre fui encantada por aquilo. Aos 10 anos eu caçava esmeraldas na casa da minha avó, na Toscana. Era incrível. Ela mandava vir uma joalheira em muitas tardes no verão, e as mulheres da família ficavam ali sentadas, refazendo suas jóias. Então eu via águas marinhas imensas. Tudo era sendo desmontado e se formavam novas jóias. Eu me lembro de uma borboleta de esmalte azul, com uma pedra de água marinha enorme, que me deu um imprinting, sabe? As jóias têm que ser grandes, coloridas, alegres e únicas. É isso que busco no meu trabalho agora.
CF - Você me disse que colocou seu DNA nas peças que faz, que você só consegue trabalhar com o que realmente gosta.
FRD - Sem dúvida, eu faço aquilo que me encanta. Só consigo vender peças que eu usaria. Se é uma peça que eu não usaria, nem finalizo o protótipo. Acho que nessa altura da vida é importante sim comercializar e ser comercial, mas o mais importante é fazer aquilo que a gente acredita e para pessoas que eu quero fazer.
CF - E que mulher é essa, Francesca?
FRD - Ela é “dona do seu nariz”, sabe o que ela quer, anda livre e solta pelo mundo, não precisa pedir nada pra ninguém. Ela pode ter tanto 15 anos quanto 90. São mulheres que possuem alma própria.
CF - Como você cria uma coleção? Como você conjuga todas as peças, porque imagino que todas devam comunicar-se entre si.
FRD – Sim, sim! É exatamente isso! Primeiro começa uma viagem, uma viagem mesmo, uma exposição de arte, um concerto. Nós que somos criativos estamos conectados ao mundo e temos inspiração o tempo todo. Essa inspiração tem que ser seguida e de lá começam a nascer idéias para o papel. Do papel você passa para o protótipo. Com o protótipo eu gosto de conversar, usa-lo, misturar com outro protótipo, trazer uma idéia que já tinha tido lá atrás, enfim, trabalho com ele até ter uma gama de protótipos, que pode ser de 100 a 200 peças. De lá a coisa então começa a ser enxugada para entrar dentro dos parâmetros normais. Assim, a cada semestre, tenho que lançar mais ou menos 100 peças. São em média 200 peças por ano. Elas estão dentro de uma linha, porque naquele momento eu me inspirei por aquele assunto. Por exemplo, a minha coleção que se chama Familia Medici, começou a ser imaginada em um museu da Itália, em Firenze.
CF - A Família Medici deve ter dado muita inspiração!
FRD - Sim. Aqueles quadros incríveis, aquelas mulheres com jóias incríveis. Essas jóias na verdade depois se perderam ou foram roubadas, mas nos quadros, nas telas, elas ainda existem. Essas jóias com certeza já atingiram outros criadores. Reconheço alguns traços do Bulgari, alguns do Cartier, alguns traços de jóias russas. Tenho certeza que todos esse designers antes de mim, olharam esses quadros. Já a coleção Rio de Janeiro por outro lado, foi inspirada por curvas. As curvas do Niemeyer, as curvas do calçadão, as curvas da cidade, o perfil do Rio de Janeiro. Isso tornou a seguir a linha Ondas. Quando estava desenhando a linha Brasília, fui falar com o Niemeyer. Mostrei pra ele o primeiro protótipo, pois não queria usar as linhas dele sem que primeiro me desse autorização. Acabei recebendo uma benção formal e ele até me deu um palpite que achei ótimo. Eu levei pra ele uma pulseira onde seu trabalho era vazado ao contrário.
CF - Como assim? Você fez o negativo?
FRD - Isso, o negativo. Ele olhou aquilo e falou: “Mas por quê? Faz o contrário. Onde eu botei o concreto, bota a prata. Pode fazer, minha filha, que vai ficar melhor”. E eu fiz. E realmente ficou muito melhor. É obra dele, exatamente como ele a concebeu.
CF - E a próxima coleção? O que vai ser a próxima coleção?
FRD - (risos). Eu não posso te contar ainda, pois não está formada.
CF - Você sofre com o processo criativo? Tenho muitos amigos que trabalham com roupa e sofrem horrores.
FRD - Eu sofro sim, mas depois de tudo aquilo que passei, esse sofrimento é quase uma benção, eu paro e falo: “Nossa, graças a Deus que estou sofrendo de novo para criar uma coleção”. Que bom que eu ainda tenho o luxo de sofrer de novo pra criar uma coleção. Porque houve um momento que achei que isso estava perdido, sabe?
CF - Você chegou a pensar que não tinha mais jeito?
FRD - Por um tempo não teve mesmo jeito. Eu só via as coisas acontecendo em meu nome sem que eu pudesse fazer nada.
CF - O trabalho foi fundamental, né?
FRD - Sim, ele me salvou. Nesse período toquei dois projetos. Eu criei uma exposição pra mostrar o meu trabalho, uma retrospectiva. Os embaixadores da Itália me disseram: “Francesca, te solicitamos uma exposição há dois anos. Dentro dessa sala, na hora que você quiser, durante um ano. Faça acontecer”. Foi uma maravilha, me dediquei a esse projeto, busquei patrocínio e me encontrei com o Hugo França, que usava madeiras abandonadas pela natureza, esculturas que são mobiliários, respeitando a forma da madeira. Fizemos então uma linda exposição, que foi muito visitada e aquilo me deu muito ânimo. Eu revivi tudo aquilo que tinha feito nos últimos 20 anos e que por sorte tinha guardado. Além disso, em paralelo, fiz o projeto de um livro, sobre Pedras Brasileiras, onde tive suporte de uma equipe e patrocínio do Banco Icatu. O livro aconteceu, foi lançado e está hoje nas livrarias. Foi parar nas universidades e está sendo usado como livro de referência. Isso tudo me deu muito orgulho.
CF - E a sua família? Gosta do Brasil?
FRD - Agora sim, eles vêm muito ao Rio de Janeiro.
CF - As famílias italianas são muito unidas, todos trabalham no negócio da família?
FRD - Sim, somos quatro, graças a Deus. Tenho um irmão que toma conta de uma parte, outro que toma conta de outra e eu e minha irmã pudemos voar soltas. Eu moro no Brasil e ela na Alemanha. Uma vez estávamos todos em Angra, naquela beleza toda, essa água quente do Brasil, estávamos nos lembrando como ia ser janeiro em Roma e minha mãe disse ao meu pai: “Eu, quando um de nós dois morrer, vou me mudar pro Brasil”.
CF - (risos) Já contava que não seria ela, né?!
FRD - (risos) Pra uma pessoa na terceira idade não tem nada melhor do que isso aqui.
CF - Eu tava lembrando que aquele dia no jantar você me contou a historia da técnica do elevador…
FRD - (risos ) É verdade… Este ano fui escolhida pela Endeavor, que é uma instituição maravilhosa que apóia empresários em países em que ela acredita poder mudar a realidade se aquele país tivesse mais empresários empreendedores. No Brasil, a cada ano são selecionadas 500 empresas para avaliação, onde apenas 1% é escolhida como empreendedor Endeavor. São empresas que estão dentro dos padrões éticos, de desenvolvimento e de garra que eles acham que são necessários para se tornar um exemplo para outros empreendedores.
CF - Isso é genial.
FRD - Então é o seguinte: você faz o seu dever de casa, estuda bem todas as questões da sua empresa para aproveitar da melhor forma possível aquela uma hora e meia que aquele empresário tem pra gastar com você e a cada mês ele manda e-mails pedindo notícias. Eles me explicaram que é muito importante ser objetivo, explicar todo o seu problema em minutos. Essa técnica se chama Elevator Pitch. Em três minutos eu tenho que dizer quem sou, o que faço, qual é o meu produto, apresentar o meu problema e descobrir de que maneira ele pode me ajudar. Nós brincávamos que entre o térreo e o sétimo andar você precisa resolver sua vida. (risos)
CF - Isso é incrível, Francesca.
FRD - A Endeavor caiu do céu. Mas sabe o que é mais incrível? Que daí pra frente eu já me comprometi a quando chegar a um ponto em que eles entendam que eu estou pronta, a prestar também network para outras mulheres que estão desenvolvendo trabalhos sozinhas, ou seja, me tornar uma multiplicadora. Assim, vou poder repassar e distribuir todo o know-how que aprendi durante esse período.
CF - Que bacana essa mentalidade de devolver um pouquinho do que a gente recebe. Acho que no Brasil essa cultura não existe, o que é uma grande pena.
FRD - É verdade. Essa mentalidade é fundamental, mas acho que isso já está acontecendo. Tem vários núcleos de pessoas que já estão fazendo. Um bom exemplo sempre vai se alastrar.
CF - E sair contaminando no sentido positivo.
FRD - Exato.
CF - Ah, eu tô feliz, acho que conversamos bem. E você?
FRD - Achei ótimo. A única coisa que eu queria enfatizar é: acredite, confie em si mesmo, porque se você acreditar em uma coisa e se empenhar muito, isso vai acontecer.
